SOLANO BRUM,O PÁSSARO  CANTOR
AMOR PERFEITO
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UM CORPO DE MULHER

UM CORPO DE MULHER

Conto de Solano Brum



Antes de o Policial da Rádio Patrulha chegar ao encontro macabro junto com o Sr Adalberto, alguém havia chegado primeiro, revirado todo o ambiente e vasculhado tudo, tomando para si objetos valiosos que encontrara.
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De pronto, o caseiro, um Senhor com idade superior a uma década de seu Patrão, foi observado quando tentava sair do quarto. O Investigador, que havia chegado após os Patrulheiros encontrar os cadáveres, o impedira.
- Mas, Senhor... - Balbuciou ele, estendendo a mão a quem o impedira, num gesto de clemência sobre o fato. Fora ele quem chamara a Polícia e que, para tanto, parara um carro que passava na rua e pedira socorro; e que, denunciara, também, aos Patrulheiros sobre o homem...
- Jovem? Lançou-lhe a pergunta pegando-o de surpresa, pois, enquanto ponderava por sua saída, voltara-lhe as costas.
- Não sei precisar, senhor. Talvez, sim... Seu corpo era jovem, porém, quando o avistei, já havia saído portão em fora. Fez pausa. Ouve silêncio.
Ainda dentro do quarto, olhando aqui, ali, acolá, o Investigador procurava um “quê” possível que o levasse a descobrir quem havia disparado o primeiro tiro. Caso não descobrisse, mais tarde ouviria do Perito a resposta a que tanto buscava.
Já com o revolver calibre 38 dentro de um saco plástico, ele pretendia deixar o local levando consigo o Senhor Adalberto, responsável pela conservação e limpeza da casa e agora, testemunha, portanto. Perguntava-lhe constantemente sobre o Patrão; o dono da casa... E ele tremia, pois, o que diria ao Patrão sobre o acontecido, assim que ele chegasse? A essa pergunta, que ele mesmo fazia e não obtinha resposta, tremia; já a outra, a que o investigador lançara-lhe, era fácil. Mas, como dizer ou respondê-las.
Os dois cozinheiros, também idosos, ficariam, pois, haviam saído para a compra de um peixe. Ao chegarem, ficaram abalados com a presença de uma Rádio Patrulha à frente da casa e uma pequena aglomeração de pessoas curiosas com o acontecido, e, ainda mais, sobre a possibilidade de haver mortos dentro da casa.

Desceu as escadas sempre acompanhado pelo Senhor Adalberto. De repente, ele estancou e disse-lhe:
- Espere mais um pouco – Retirando o chapéu, o Investigador o abrandou, dispensando, por momento, sua presença à Delegacia.
Aliviado ante a decisão tomada de súbito, rapidamente deu meia volta. Depois, como se algo o incomodasse – uma confissão por certo - parou admirando algumas rosas à sua frente; instintivamente acariciou uma delas e pretendendo subir os dois primeiros degraus para entrar na sala de recepção, parou e tentou declinar sobre o que vira: O episódio do encontro dos cadáveres e o que dizer ao seu Patrão assim que ele entrasse naquela casa. Havia visto, de relance, uma mulher bem vestida, estirada no chão, enquanto que, a menina, que já a vira anteriormente, permanecia com os olhos abertos, refletindo o tom esverdeado da retina. Estava nua; e, o rapaz, seu namorado, de bruços, com metade do corpo despido... O quadro em que os encontrara lhe pareceu dantesco.
Ao abrir o portão que dava acesso à entrada ao quintal, o Investigador parou. Com um gesto súbito, pousou sua grossa mão sobre o ombro direito de Senhor Adalberto, fazendo-o parar. E, como se refletisse bem, olhou-o de soslaio e lançou-lhe algumas perguntas a mais. Ante as firmes respostas, entendeu que, realmente seria desnecessário levá-lo à Delegacia. Poderia chamá-lo após algumas conclusões periciais. E já dentro do carro, pronto para seguir em frente, resolveu descer e chamá-lo outra vez.
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Adamastor – seu Patrão - fora criado com mimo por sua mãe. Quando jovem, ela sempre o acudia mesmo em ocasiões não tão difíceis. Não precisava ouvir seu pedido de socorro; tampouco um grito; lá estava ela, zelosa, presente, dando-lhe conselhos e afastando-o do Pai que o julgava um menino de modos estranhos. Mas, em se tratando da idade, acatava suas ordens e a via livrando-o das más investidas por ele. Era um jogador compulsivo. Ganhava dinheiro porém, perdia muito. Por isso, quase não via o filho e o contato era raríssimo. Cresceu sempre estudando e um ano após sua formatura em Engenharia Florestal no ano de mil novecentos e trinta e cinco, perdera o pai, certa noite, numa briga de navalha. Sofreu um baque apesar de pouco se orgulhar sobre sua figura, posto que, estava sempre ausente; mas, alimentava sua auto estima no colo da mulher que se orgulhava em ser quem o havia posto no mundo.
Tinha uma queda pelos números. Resolveu abrir um escritório para movimentar suas posses. Uma espécie de Escritório de Investimento. Passou a investir o dinheiro conseguido na partilha de bens do “de cujus”. Sua mãe abriu mão de tudo e o aconselhava sobre a súbita ascensão aos negócios, mas, notava que, dia após dia seu único e amado filho, tornava-se um homem taciturno, porém, vendo-o vestir-se bem e ostentar um belíssimo anel de diamante, desacreditava dos maus pensamentos que lhe rondavam a cabeça. Honrado no Comércio; passou a investir o dinheiro em ações e empréstimos matreiros, locupletando-se dia após dia. Tinha poucos amigos e só alguns, bem selecionados, frequentavam sua casa.
Um homem alto, porém, franzino. De vasta cabeleira, delicada tez e nariz pequeno. Não era uma cópia fiel da mãe; uma possível mistura de pai e mãe, porém, lembrava, todavia, seus traços finos. A firma prosperava ante seus olhos de lince; o tino aos negócios o afamava e muito e suas mãos, sempre ágeis, principalmente quando se prestavam a contar as notas de Um mil réis. Somente ele as manipulava, juntando-as em montantes de dez. Em seguida, passava sobre os mesmos os elásticos e os acomodavam no fundo do cofre do escritório, sendo o único detentor da chave e do segredo.
Dizimista convicto, era visto quase todos os domingos nas missas. O Padre o elogiava, enquanto que as beatas viviam se desmanchando em sorrisos. Gostava de mulheres maduras. Quando, por ventura, alguma delas se empoleirava em seu carro de luxo, podia contar que a idade da mulher estava acima dos quarenta. Comparava-as, carinhosamente à sua mãe que, enchendo-o de carinhos, o sustentava nos braços, esquivando-o das donzelas incautas que o cercavam desde a juventude.
Assim que ela ficou viúva, ele passou a cortejá-la com maior insistência. Tinha um desejo maternal e as vezes carnal por quem lhe dera a vida. A viuvez da mulher encantada, que distribuía sorrisos quando entrava no seu estabelecimento, o qual já havia sido apensado ao andar de sima, lhe tirava o sono. Olhava-a, como sendo sua. Apreciava seus seios que após os quarenta anos ficaram mais rígidos e redondos e de seu corpo exalava um odor que o embebecia. Mas, aquele ardor que lhe fluía a pele, as vezes era passageiro. Ela, porém, o tratava como filho, exagerando, às vezes, o carinho que dela para ele, era de mãe, esquecendo-se, contudo, de que, antes de tudo, dera a luz a um homem e como tal, capaz de amar.
Após completar um ano de viuvez, ele a viu sendo cortejada por um homem. O que vira tirara-lhe o sono. Mas nada comentou sobre o fato. Depois, uma aproximação mais demorada e em seguida, uma noite fora de casa; de repente um sorriso mais abrangente na boca e uma possível indiferença quando de sua aproximação.
Ela havia se reservado em luto por um ano. Seu corpo apresentava um sazonado inebriante que saltava aos olhos. Era uma mulher que parecia haver furtado, senão o segredo da juventude, o impedimento que leva a epiderme revelar, nos traços da face, os anos de vida. Sua cútis assemelhava-se a uma pétala de rosa.
Por tanto procurar ver o que não queria, certificou-se do que lhe rondava os pensamentos: uma possível traição. Sentiu na cabeça um estalo. Não queria acreditar e desejou a morte do recente namorado. Mas, de repente a perdera. Uma febre a qual superara todos os medicamentos ministrados ao seu organismo e após uma parada renal, certa noite, levara-a ao tumulo.
No enterro de sua genitora e amada, viu que o homem, que o quisera morto, chorava copiosamente e aquilo o deixara intranquilo; e, por vê-lo em prantos, decepcionava-se sustentando dentro de si, ser o amor que ele lhe devotava, maior do que o dele, tanto como filho, quanto amante de sua beleza. Todo esse aparato percebido na face de quem pranteava a perda da amada o fez pensar o quão desprezível se tornara, tentando tomar para si, quem só lhe devotara, até em tão, amor fraternal. Maldito elã que lhe tomava o coração, intranquilizando-o em tempestivo momento.
Após o enterro, estava só. Se antes era taciturno, agora se tornara amargo até para quem tentasse uma aproximação mais calorosa.
Nenhuma mulher em seu escritório, nenhuma em sua casa, tampouco em sua vida.
Já com trinta e dois anos, cansado de almoçar em hotéis de luxo ou em restaurantes finos, resolvera contratar três Senhores para a sua casa. Dois para a cozinha e um para o zelo e conservação da casa nova, comprada num bairro de luxo da Cidade.
Enquanto no escritório sua figura impecável demostrava caráter inflexível, em sua casa, deixava-se levar por algo incompatível à sua classe. Dentro de um quarto, que só ele possuía a chave, passava horas e horas sem voltar ao convívio dos demais da casa.
Austero nos negócios, opiniões sobre a bolsa de valores e temente a Deus, jamais deixou transparecer, mesmo que por uma tênue linha, entre o disfarce e a honradez, o que ali realizava.
Viajava, constantemente à Cidade de Paris. Passava por lá, dois ou até quatro meses seguidos. A ninguém revelava sua recôndita fuga. Mesmo porquê, jamais deixara transparecer ao impoluto e majestoso porte, qualquer ato esconso.
De lá, trazia caros perfumes de equivalente onça e joias, adquiridas das mãos de incomparáveis e renomados ourives, bem como impecáveis ternos de linho e objetos em evidência, como a máquina de filmar, que registrava tudo sobre sua pessoa dentro da alcova, embora não houvesse leito, dispondo apenas de um pequeno palco.
E quando abria sua mala em seu furtivo quarto, ficava horas e horas apreciando os adereços. Brincos, pulseiras e colares, bem como as plumas e as pinturas que aquela rica cidade produzia.
Era rígido com o caseiro concernente às iguarias que vinham da cozinha para a sua mesa. Não tolerava deslizes dos funcionários, todavia, os três eram incluídos na folha de pagamento como operários da firma que administrava, objetivando-lhes, como os demais, todos os direitos trabalhistas tão bem elaboradas pelo atual Governo Vargas a quem muito prezava.
Deixara para traz os episódios sobre as mulheres mais maduras. Vivia só, pouca satisfação dava a quem as pedia e raríssimas vezes buscava consolo a uma prostituta apresentada a ele, mormente, que aparentasse idade acima dos quarenta anos. Apenas, consolo. Não lhes tocava. Olhava-as sobre a cama, exigia-lhes a mostra dos seios e se descontrolava repentinamente quando a pretendente a ser possuída por ele, se excedia em carinhos, tentando mostrar-lhe a parte genital, como preferência habitual dos homens. Vestia-se rápido e após, abria a carteira e espalhava as notas sobre a cama, num gesto de desprezo a quem até então, fora condizida, carinhosamente por ele até àquele quarto de Hotel. Algumas permaneciam deitadas, espantadas com a reação repentina, enquanto outras, na vã tentativa de entender o acontecido, reagiam cercando-o de carinhos. Mas, uma vez descontrolado, sem perder a classe, desvincilhava-se da mulher, temendo repentina excitação. Era homem, sentia-se homem, porém, algo fora de seu controle o afastava da mulher no momento da copulação. E sentindo-se vexado, dava por encerrado o que seria, para a mulher, um grande acontecimento. Após o que, fora desse desequilíbrio emocional, tornava-se um ser diferente nas ações. Sentia-se fraco, impotente, propenso a um parceiro... másculo. Sua cabeça girava e o sorriso de sua mãe lhe aparecia em sonhos.
Essa angústia, esse desejo distorcido e incontrolável o perseguia a todo instante.
Dentro do quarto secreto, enquanto olhava para o retrato de sua mãe, suas mãos seguiam, incontroláveis, na pintora do rosto, no auxilio aos retornos dos olhos, na pintura da boca e na peruca de cabelos de uma cor que ele mesmo não sabia o porquê, mas, que se assemelhavam aos do modelo de olhos fixos aos dele.
Vestia-se igual. Para tanto, guardara dela, os mais caros e modernos vestidos. Comparados aos que havia visto anteriormente à sua morte, os comprava em Paris e calçava iguais sapatos da falecida.
Pronto. Havia se tornado ela, num corpo de homem. Ensaiava abrir a porta; sair, descer as escadas, anunciar a todos, embora a apenas três, sua verdadeira condição humana... Um corpo de Mulher. Torcia a maçaneta mas, recobrava os vadios sentidos. Mirava-se demoradamente num grande espelho; praticava a imitação do mesmo sorriso que via e demorava-se até ter a certeza de que era igual, e, amava-a mais que nunca.
Travestida por inteiro, sentia um enorme desejo de ser possuída; ali, naquele quarto; e, então, lembrava-se do homem com quem sua mãe, possivelmente havia se entregado. O mesmo que desejara morto ao saber que desfrutara dos carinhos dela... Sim, ele mesmo. Por ele, havia desejos irrefreados e sentindo-se escravo da extravasada libido, deitava-se na cama, contorcia-se em devaneios carnais e o sentia, possuindo-o, numa devassidão incomensurável.
Após alguns segundos de plena, porém, fictícia mas deleitosa satisfação, desfazia-se das roupas; da maquiagem, e, voltava a ser o homem cujo caráter, dir-se-ia, ilibado quanto ao fato passado. Porém, todo o acontecido era registrado pela filmadora e as posições, por fotos e reveladas, numa outra cidade. Era um segredo seu.
Após os quarenta e cinco anos, as sudoríparas glândulas o incomodavam mantendo molhadas as camisas de luxo que vestia. A pélvica tornara-se larga, construindo assim, um quadril mais redondo, enquanto que o abdome, exibia uma espécie de hipótese de barriga, exigindo com isso, outros ternos e paletós da moda.
Mas não deixava transparecer a quem o visse, esse possível infortúnio quanto aos ditames fisiológicos do passar dos tempos.
Dos lisos e acastanhados fios que cobriam sua cabeça, tons alvacentos começaram a se entremearem aos demais. Contudo, sendo um homem de posses, belo carro conversível e solteirão, a transformação o deixava mais charmoso. Porém, não compreendia a rejeição a uma prostituta de classe, quando a via nua sobre a cama, nem aquele desejo incontrolável de ser possuído por um igual de sua espécie.

E foi assim que, ao sair de carro a uma bela esticada, num domingo de sol, para um Município Próximo, cerca de duas horas de viagem, ao passar por um posto de gasolina, conhecera um jovem de dezenove anos. Impressionara-o seus olhos grandes e brilhantes. Pouco conversaram e em seguida, o fez largar o posto, entrar no carro e partir com ele. Voltaram sem mesmo permanecer um dia no local.
Era um jovem solteiro cuja família havia se mudado para longe, deixando-o bem empregado, já que podia dormir num quarto contíguo e alimentar-se na pensão mais próxima.
A partir desse momento, passou a chegar no escritório mais tarde, permanecer pouco e voltar o mais breve possível para casa. O jovem o fascinava. Comprara para ele belos ternos, luzentes sapatos de verniz e o incentivava a assistir belos filmes, contando que, ao voltar, lhe contasse todo o entrecho da história.
Todo esse amparo não só financeiro quanto social ao jovem, causava uma constante insatisfação ao caseiro. Vez por outra, quando de sua ausência, tratava-o com rispidez, rotulava-o sobre seus modos e discordava de seu linguajar. Não se compatibilizava, portanto, com sua permanência naquela casa luxuosa. Quando o viu, pela primeira vez adentrar à sala junto de seu patrão, julgara, dele, breve estadia. Mas, após verificar sua intimidade crescer dia após dia, mesmo que dormissem em quartos separados, o sorriso do jovem, seus modos simples e fora de propósitos e até mesmo sua ascensão quanto as vestimentas de luxo e os sapatos caros, o deixava intranquilo e um tanto sisudo dentro da casa.
Passou a administrar seus passos. Segui-lo pela Cidade, sem o consentimento do Patrão. Queria um fato concreto para fazê-lo deixar a casa bem como ao Patrão. E tanto procurou que certa vez o viu cortejar uma menina jovem.
Voltou para casa, satisfeito pelo que havia visto e em sua cabeça, especulava uma armadilha para pegá-lo em flagrante.
Os dias se passaram e quando bem não esperava, eis que ele adentrou à casa com a menina. Passou com ela sem dar-lhe satisfação. Quase duas horas depois, desceram as escadas e saíram. Ao bater o portão, ouviu seu sorriso e a seguir o da jovem, como dois pombinhos apaixonados.
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Seu astuto instinto de Investigador o fez olhar para quem o acompanhara até o portão. Ele estava de costas, cabisbaixo, triste e imóvel.
Imediatamente abriu a porta do carro e mandou que o motorista o esperasse por mais um pouco. E antes de o Senhor Adalberto avançar o passo em direção à casa, chamou-o pelo nome e o fez parar. Ele estancou, sobressaltado. Os olhos se arregalaram e suas mãos tremeram. Chegou perto e olhou bem em sua face.
- Senhor...
- Pois não!
- Havia me esquecido... o Senhor tem alguma coisa a mais para me dizer ou há algo de inverossímil nas respostas anteriores? - Diz-me, Senhor: O que mais sabe? Conte-me sobre o rapaz ou jovem que o Senhor bem o qualificara anteriormente. Como ele era? O que fazia nesta casa? Por favor, poupe-me o fôlego quanto a outras perguntas. Fale-me o que sabe!
- Bem... Entre reticências começou: - Eu já estava pronto para revelar. Queria lhe falar... Estou com medo, pois, meu Patrão ainda não chegou e não sei qual a sua reação! O rapaz, eu o conheço daqui mesmo; ele é quem faz a entrega de alimentos à esta casa. Todas as semanas aparece com os pedidos feitos pelos Cozinheiros. Porém, eu me afeiçoei à sua pessoa. Antes dele sair, eu lhe pedia que se demorasse mais um pouco e oferecia-lhe fatias de bolo com Guaraná. Sou eu quem faço o pagamento das compras, mas dispensava os trocos, para isso, sempre lhe dava novas de valores inteiros. Isto para o seu agrado. Entre mim e ele, nada de anormal. Considero-o como um filho. Sou um homem só, moro nesta casa e se for despedido, não tenho para onde ir. Por isso o quero como amigo e quem sabe, receber dele um amparo, caso haja necessidade futura. Mas ontem, ele apareceu aqui, muito nervoso e afobado. Pediu-me uma quantia vultosa. Disse-lhe que não a tinha no momento; que voltasse amanhã – hoje por certo – mas, que não sabia se haveria de conseguir o que me pedia, mas, que voltasse. Muito afobado e com desesperada pressa, entrou no caminhãozinho de entregas, acelerou e saiu deixando atrás de si um fumaceiro enorme.
Hoje, chegou mais calmo e sorridente. Perguntou-me se havia conseguido a quantia; antes, o tranquilizei e o fiz sentar-se à mesa, pois não havia ninguém além de nós dois na casa, então, não vi nenhuma razão em mandá-lo sair. Ofereci-lhe uma fatia de bolo pão de ló e mencionei entregar-lhe um envelope. Não era a quantia desejada por ele, porém, haveria de se contentar com a metade. De repente, ouvimos um disparo de arma de fogo. Logo a seguir, outro, e nos pareceu vindo lá de fora. Olhou-me surpreso e eu também fiquei apreensivo, pois, em dado momento, nos pareceu dentro de casa. Mas, esperamos para ouvir, caso fosse lá de fora, algum alarido, e, como passaram-se mais ou menos uns dez a quinze minutos, ouvimos outro disparo, sendo esse último estampido no andar superior. Surpreso, tanto eu quanto ele, permiti-lhe que fosse ver o que estava acontecendo. Foi assim que ele saiu da copa, passou pela sala e antes de subir as escadas, mandou que eu chamasse a polícia. Fiquei tonto. O vi subir as escadas e pensei logo no Patrão. Ele jamais permitiria alguém subir sem sua permissão, mas, antes de tentar detê-lo, ele, muito rápido nas passadas, já havia atingido a antessala de cima e adentrado ao quarto, pois, a porta permanecia aberta. Não muito tempo depois, talvez uns vinte minutos, voltei e o vi descer as escadas, passar por mim como um relâmpago e sair pelos fundos da casa, mudo, e tomar o carro e seguir para não mais vê-lo. Tremi de pavor. Subi degrau por degrau e o silêncio era dominador. Abri a porta e a sena era dantesca. Lá estavam, o jovem impertinente com sua namorada, ambos mortos, e, vi uma mulher muito bem vestida e bem maquiada, também morta. Uma arma – que o Senhor a pegou – e um cheiro de pólvora no ar. Tremendo de medo, cobri o corpo da menina pois ela estava nua; seus olhos permaneciam abertos, e, apressei-me a cobrir o corpo do jovem com uma toalha.
Sai do quarto pois ouvi passos na escada. Temi pensando serem do meu Patrão. O que lhe dizer? Mas, era o Patrulheiro que chegava naquele instante. Fez pausa.
Após ouvir com preciosidade os detalhes, fez-lhe outra pergunta:
Porque o Senhor fez questão de não me mostrar aquele quarto que está fechado?
- Não sei o que o Senhor quer dizer! Não seria melhor esperarmos o Patrão? Somente ele tem as chaves; nunca que me foi dado ordens de entrar e arruá-lo.
- Pois vamos voltar lá! Convidou-o sabiamente e completou: - Quem sabe o que encontraremos?
Conduzindo-o pelo ombro, subiram as escadas e com um pequeno pé de cabra que lhe passaram as mãos, abriu a porta.
Ao acender a luz, jamais vira algo tão assombroso. Retratos de uma mulher vestida igual à do modelo, numa moldura de quarenta centímetro por sessenta, talvez, pintada a óleo. A mesma, estirada no quarto ao lado.
- Não estou acreditando... Essa mulher... é a mesma... E apontou para o quarto ao lado. E voltaram ao quarto onde os corpos jaziam. Maquiavelicamente abaixou-se e retirou da cabeça da mulher uma peruca. Em uma das mãos, alguém lhe havia tirado a luva... depois, indicou um porta notas sobre a cama – Sim... Sustentou ele. É do Senhor meu Patrão... Está vazio. E como quem retorna à realidade dos fatos, com um olhar de desespero, olhando a mulher morta, olhando para o Investigador, sentiu-se mal.
Calma Senhor Adalberto... Essas coisas acontecem mesmo! O Senhor sabia disto?
- Não... É claro que não. Não pode ser meu Patrão! Não pode ser ele! Não... Não é ele!
Ao vê-lo trêmulo e fora de si, mandou que um policial o conduzisse ao andar de baixo e lhe desse água, e em seguida, voltou ao quarto secreto.
Além de registrar o que encontrara, recolheu retratos da mesma mulher, em várias posições, com várias vestimentas e alguns especiais estojos de maquiagem.
No quarto havia, um grande espelho, um pequeno palco e à destra, e uma máquina de filmar, francesa, modelo antigo. Ao lado dela, um bilhete escrito à mão:

“Amargurado com minha triste sina; certo de que havia encontrado meu grande amor; como a mesma arma que ele trouxera consigo, tiro-lhe vida, a dela e a minha própria, por não mais suportar outra traição!”
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Solano Brum
Enviado por Solano Brum em 28/01/2017


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